Sociologia da Tecnologia  Bioprospecção e legitimação

Michelangelo Giotto Santoro Trigueiro

ISBN - 978-85-7928-000-9 — 200 págs.

R$ 32,50

O livro é o resultado de estudos realizados pelo autor, ao longo dos últimos 20 anos, sobre o processo de geração de tecnologias, no atual momento do desenvolvimento científico-tecnológico. Sua preocupação de fundo é de natureza teórica, localizando-se na área que tem sido chamada, recentemente, Sociologia da Tecnologia.

O trabalho discute o processo de geração de tecnologia, seus fatores determinantes e sua estrutura, no contexto atual do desenvolvimento científico-tecnológico. Sua preocupação central é com a construção de uma teoria sobre a produção de tecnologia, e se apoia em ampla revisão de literatura, especialmente nas contribuições decorrentes do debate em torno da autonomia/não-autonomia da ciência e da tecnologia na sociedade.

A partir da análise das mais distintas posições acerca do fenômeno tecnológico, empreende um percurso em que objetiva apresentar um quadro explicativo para o que designou estrutura da prática tecnológica. Nessa linha de preocupações, analisa a problemática da legitimação e o modo como as sociedades vêm lidando com o fenômeno tecnológico, suas reações, apoios e conflitos.

Preocupado com o exame de uma situação concreta, o autor aborda uma área de ponta do conhecimento, que tem ganho importância crescente: a atividade bioprospectiva. Essa atividade se refere à exploração da biodiversidade em busca de identificar princípios ativos e conhecimentos para a elaboração de novos fármacos, produtos agropecuários e cosméticos e tem mobilizado muitas atenções, no mundo inteiro, entre movimentos ambientalistas, grandes indústrias, pesquisadores de diferentes áreas e comunidades indígenas. Nesse sentido, desde a perspectiva sociológica, são tratadas vários problemas inter-relacionados, como os que dizem respeito à soberania nacional, ao direito dos povos de negociarem diretamente com grandes grupos econômicos os conhecimentos a respeito da natureza e de sua utilização e ao compartilhamento de benefícios decorrentes da exploração desses conhecimentos. Tudo isso nos coloca diante de um cenário de muitos dilemas que, examinados sob as lentes da sociologia, evidenciam conflitos, novas oportunidades e muitos desdobramentos práticos nos contextos nacionais e internacionais.

Embora o livro possua um caráter mais teórico, voltado à área da Sociologia da Tecnologia, as reflexões contidas em sua análise sobre a bioprospecção são de grande valia a todos os interessados em compreender um dos aspectos mais controvertidos da atualidade, relacionado ao que se pode chamar a questão ambiental. É, desse modo, leitura importante para os que lidam com esse tema, sejam estes formuladores de políticas, parlamentares ou mesmo pessoas ligadas a movimentos ambientalistas.

Pensar a tecnologia como uma realidade própria, em suas características gerais, não significa negligenciar suas mais variadas formas de manifestações concretas: o que apresentam de peculiar e irredutível, a exemplo da biotecnologia, dos artefatos bélicos, dos equipamentos e dos conhecimentos relacionados à informática, às telecomunicações, aos novos materiais, e assim por diante. Cada uma dessas formas tecnológicas concretas possui especificidades, no que concernem aos impactos introduzidos na sociedade – em termos de melhoria ou de ameaça à qualidade de vida –, aos diferentes tipos de reação social – de apoio ou de resistência – e às possibilidades de valorização ou de limitação da dignidade humana.

Aborda-se a tecnologia como um fenômeno distinto na sociedade, com o cuidado de não se cair naquilo que alguns autores consideram uma excessiva abstração ou generalização da tecnologia. Nesse sentido, cabe lembrar a crítica que se faz do tratamento genérico da tecnologia realizado por Heidegger. De acordo com essa crítica, Heidegger estaria negligenciando o conhecimento de novidades importantes no fenômeno tecnológico contemporâneo, e superestimando determinados efeitos negativos da tecnologia (relacionados à dominação humana), em detrimento de tantas outras possibilidades emancipatórias, a exemplo das novas técnicas para aumento da longevidade, das novas biotecnologias agropecuárias para a produção em áreas de baixa fertilidade, das modernas tecnologias de informação e de muitas outras situações em que são evidentes as conquistas humanas.

Tudo isso exigiu cuidadoso estudo de muitas discussões e do material empírico levantado, para relacionar adequadamente as características mais gerais da tecnologia às peculiaridades de uma de suas formas atuais de maior impacto – a chamada bioprospecção –, e para não cair em esquemas analíticos muito simplificadores e com grandes apelos ideológicos. A esse respeito, há que se considerar o forte componente político e ideológico que perpassa o cerne das discussões sobre a bioprospecção contemporânea, do qual o pesquisador não está imune. Ciente das inúmeras dificuldades envolvidas nessa empreitada, o presente ensaio se lançou, mesmo assim, a esse desafio.

 

SOBRE O AUTOR

Natural do Rio de Janeiro, Michelangelo Trigueiro é professor do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB), com pós-doutorado no Centre for Social and Economic Research on Innovation in Genomics, na Inglaterra, e no Departamento de Política Científica e Tecnológica da UNICAMP. Tem inúmeros trabalhos publicados nas áreas de Ciência e Tecnologia e Sociologia da Educação, dos quais três livros sobre ensino superior e um sobre as novas biotecnologias. Foi Decano de Ensino de Graduação na UnB, entre 2001 e 2003, e, em março de 2008, assumiu o cargo de coordenador da pós-graduação em sociologia UnB.